Uma ilustração de uma bactéria ampliada por uma lupa, com foco em seus detalhes.
Uma ilustração de uma bactéria ampliada por uma lupa, com foco em seus detalhes.

A bacteriúria assintomática (BSA) representa uma condição clínica comum, porém de manejo complexo na prática médica. É essencial compreender seus aspectos fundamentais para garantir condutas adequadas, evitando impactos negativos na saúde do paciente e na saúde pública. Este artigo explora detalhadamente a bacteriúria assintomática, abordando sua definição, diagnóstico preciso, as situações específicas que indicam tratamento e os riscos associados à prescrição desnecessária de antibióticos.

O que é Bacteriúria Assintomática?

A bacteriúria assintomática (BSA) caracteriza-se pela presença de uma quantidade significativa de bactérias na urina, especificamente ≥ 105 Unidades Formadoras de Colônias por mililitro (UFC/mL), em indivíduos que não manifestam sinais ou sintomas típicos de infecção do trato urinário (ITU). O diagnóstico de BSA baseia-se na identificação laboratorial de bactérias na urina através da urocultura. Os critérios diagnósticos podem variar dependendo do sexo do paciente e do método de coleta da amostra. Em mulheres, recomenda-se a confirmação com duas amostras de urina consecutivas que apresentem o mesmo microrganismo com contagem ≥ 105 UFC/mL. Já em homens, ou em amostras coletadas por cateterismo vesical, o diagnóstico pode ser estabelecido com uma única amostra positiva.

Embora a identificação de bactérias na urina possa inicialmente sugerir uma infecção, na bacteriúria assintomática, a ausência de sintomas é o fator determinante. O reconhecimento preciso da BSA é fundamental para evitar a prescrição desnecessária de antibióticos na maioria dos casos. A conduta expectante e a não intervenção são, via de regra, as abordagens mais adequadas, reservando a antibioticoterapia para situações específicas, minimizando assim o risco de resistência bacteriana e outros efeitos adversos associados ao uso excessivo de antibióticos.

Prevalência e Etiologia

Embora a BSA possa ocorrer em diversos grupos populacionais, sua prevalência varia consideravelmente, sendo notavelmente mais comum em mulheres, idosos, gestantes e indivíduos com certas condições predisponentes. Em mulheres, a condição é mais prevalente em comparação com homens, e essa disparidade se acentua com a idade. Durante a gestação, a bacteriúria assintomática se destaca como a infecção bacteriana mais comum, com uma prevalência que oscila entre 2% e 10%. Em homens, a prevalência de BSA também aumenta com a idade, particularmente em idosos, e está associada a fatores de risco como obstrução do trato urinário e a probabilidade de cateterização urinária de longa duração. Em crianças saudáveis, a prevalência de BSA é geralmente baixa.

A Escherichia coli emerge como o agente etiológico predominante na bacteriúria assintomática, tanto em gestantes quanto em não gestantes, e de forma análoga nas infecções sintomáticas do trato urinário. Estima-se que a E. coli seja responsável por 70% a 95% dos casos de BSA. Embora a E. coli seja o patógeno mais frequente, outros micro-organismos também podem ser identificados na BSA, incluindo bactérias entéricas como espécies de Klebsiella e Proteus, além de Staphylococcus saprophyticus e Enterococcus e, em gestantes, o Streptococcus agalactiae (estreptococo do grupo B).

Diagnóstico

O diagnóstico da bacteriúria assintomática (BSA) depende fundamentalmente da **urocultura**, considerada o método padrão-ouro para identificar e quantificar as bactérias presentes na urina. Embora o exame de urina tipo I (EAS), também conhecido como urina rotina ou EQU, possa levantar suspeitas pela identificação de leucocitúria ou nitrito positivo, ele **não possui sensibilidade e especificidade suficientes para confirmar o diagnóstico de BSA**. Portanto, a urocultura é imprescindível para a confirmação diagnóstica.

Para a confirmação laboratorial de bacteriúria assintomática, é imperativo obter uma **urocultura positiva com contagem bacteriana significativa**, definida como ≥ 105 Unidades Formadoras de Colônia por mililitro (UFC/mL) em amostras de jato médio. A **coleta da amostra** deve seguir rigorosamente a técnica do **jato médio**, precedida de higiene íntima adequada, para minimizar a contaminação por microbiota uretral e perineal e garantir a fidedignidade do resultado.

É crucial notar que os critérios diagnósticos da BSA apresentam nuances importantes entre gêneros e métodos de coleta. **Em mulheres**, preconiza-se a **confirmação com duas amostras de urina consecutivas**, colhidas com um intervalo mínimo de 24 horas, ambas demonstrando o mesmo organismo com contagens ≥ 105 UFC/mL. Por outro lado, **em homens**, o diagnóstico de bacteriúria assintomática pode ser estabelecido com **apenas uma amostra de urina positiva** que apresente crescimento bacteriano significativo (≥ 105 UFC/mL) na ausência de sintomas urinários.

Tratamento: Quando e Como Intervir

O tratamento da bacteriúria assintomática (BSA) não é recomendado de forma rotineira para a maioria dos pacientes. A utilização excessiva de antibióticos é um fator crucial no desenvolvimento da resistência bacteriana, representando um grave problema de saúde pública global. Portanto, a intervenção terapêutica com antibióticos deve ser criteriosamente reservada para grupos específicos de pacientes nos quais os benefícios comprovadamente superam os riscos associados ao uso desses medicamentos.

Indicações de Tratamento

  1. Gestantes

    O rastreamento e o tratamento da BSA são imperativos em gestantes, independentemente da fase da gestação.

  2. Pacientes Submetidos a Procedimentos Urológicos Invasivos com Risco de Sangramento

    Pacientes que serão submetidos a procedimentos urológicos invasivos constituem outro grupo com clara indicação para tratamento da BSA.

  3. Transplantados Renais Recentes (Período Pós-Transplante Imediato)

    Receptores de transplante renal, especialmente nos primeiros 3 meses após o transplante representam um grupo que pode se beneficiar do tratamento da BSA.

  4. Pacientes Imunocomprometidos (Casos Selecionados)

    Pacientes imunocomprometidos podem ser considerados para tratamento da BSA em situações clínicas particulares. No entanto, é crucial realizar uma avaliação individualizada e criteriosa de cada caso.

Opções de Tratamento

Quando o tratamento é indicado, a antibioticoterapia torna-se a principal ferramenta terapêutica. A decisão sobre qual antibiótico utilizar e por quanto tempo deve ser cuidadosamente ponderada, visando eficácia e minimização da resistência bacteriana. A seleção do antibiótico ideal deve ser sempre guiada pelo **antibiograma**. Para a bacteriúria assintomática, a duração da antibioticoterapia tende a ser **curta**, geralmente variando de **3 a 7 dias**.

Riscos do Tratamento Desnecessário

O tratamento da bacteriúria assintomática (BSA) em pacientes sem indicações clínicas claras configura-se como uma prática iatrogênica relevante. A prescrição inadvertida de antibióticos, além de não conferir benefícios ao paciente assintomático, desencadeia uma cascata de efeitos adversos que transcendem o âmbito individual, impactando a saúde pública.

Resistência Antimicrobiana

O desenvolvimento de resistência antimicrobiana emerge como o risco mais crítico e premente do tratamento desnecessário da bacteriúria assintomática.

Efeitos Colaterais

Ademais, o tratamento desnecessário da BSA não é isento de riscos para o paciente. A antibioticoterapia pode desencadear reações adversas diversas. Uma consequência de crescente preocupação é a disfunção do microbioma intestinal.

Impacto Econômico

O tratamento não justificado da bacteriúria assintomática também acarreta custos desnecessários e evitáveis para o sistema de saúde.

Manejo Consciente da Bacteriúria Assintomática

O manejo primário da bacteriúria assintomática, na vasta maioria dos pacientes, reside em não instituir tratamento antibiótico. A intervenção terapêutica não seletiva para bacteriúria assintomática desencadeia um espectro de riscos e repercussões adversas, com impacto tanto no paciente individual quanto na coletividade.

Populações em que o Tratamento Antibiótico é Geralmente Dispensável

É imperativo reiterar que, excetuando-se as indicações específicas previamente delineadas, o tratamento da bacteriúria assintomática é, em regra, desaconselhado em uma ampla gama de populações, incluindo:

  • Mulheres não grávidas em geral
  • Indivíduos idosos, inclusive aqueles institucionalizados em lares de longa permanência
  • Pacientes com diabetes mellitus
  • Portadores de cateter vesical de longa duração
  • Crianças saudáveis fora de contextos cirúrgicos urológicos específicos

Conclusão

Ao longo deste artigo, foram detalhados os aspectos essenciais da bacteriúria assintomática, destacando-se a importância do diagnóstico preciso e da abordagem expectante como regra geral. A aplicação correta dos critérios diagnósticos, o reconhecimento das indicações específicas para tratamento e a conscientização sobre os riscos do uso indiscriminado de antibióticos são fundamentais para uma prática clínica segura e para o controle da resistência bacteriana. O manejo criterioso da BSA é, portanto, vital para a saúde individual e coletiva.

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